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Idéias da minha avó Março 17, 2009

Posted by fernanda in Uncategorized.
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Como eu sempre digo: meus avós são o máximo, amores que reinam absolutos dentro de um coração com poltronas bem confortáveis e daquelas que, inclusive, fazem massagem nas costas deles.

Aí minha vó foi ver a nossa casinha e me veio com um turbilhão de idéias. Ela não tem CREA, mas é engenheira, arquiteta e decoradora. Desde bem pequenininha ia com o pai às obras onde ele trabalhava. E, de tanto olhar, pegou gosto. E de tanto gostar, foi buscar cada vez mais conhecimento. E, de tanto conhecer, virou referência. Ela vê um apartamento com alguns probleminhas e, de limões, faz limonadas bem refrescantes.
Dicas que ela deu pro nosso apê:

 

1 – A varandinha, apesar de pequena, é um espaço muito bom e precioso pra não ser aproveitado. Então vamos fazer uns armários pra lá. Além disso, ela sugeriu fazermos sem porta, porque porta encarece bastante. Ela até deu uma idéia que o Ali tinha dado (ok, bonitão, meu braço torcido aqui, entre os parêntesis): uma espécie de arara. E, na parede do cantinho, umas prateleiras para sapatos, bijoux, bolsas, etc.

 

2 – Cortina da janela do quarto: do ar condicionado para baixo, blackout. E dele pra cima, um cortinado lavado de varão de madeira ficaria romantiquinho. Meu avô me indicou um cortineiro de Jacarepaguá que fez as cortinas dele e não foi careiro.
3 – Em cima da geladeira: um armário todo aberto, tipo um nicho, pro microondas. Mas deixando aberto atrás por causa da caixa de luz.
4 – Arrancar o tanque fora pra ganharmos espaço na área (coisas delicadas podem ser lavadas na pia do banheirinho de empregada e baldes podem ser enchidos na ducha do mesmo banheiro) e colocar ali um armáriozinho fininho pra material de limpeza. Mas aí vamos ter que arranjar algum lugar pra deixar o tanque enquanto estivermos morando lá, porque vamos ter que recolocá-lo quando formos deixar o apartamento, daqui a 3 anos. Outra questão são os azulejos, que devem ser antiguinhos e não deve ser fácil de encontrar. Mas ela acha que deve ter azulejo ali, atrás do tanque.
5 – Orçar uma bancada pra estudar e trabalhar (já que isso é uma coisa que já vimos que não vamos encontrar mesmo do tamanho que precisamos) e um gaveteiro pra colocar em frente à cama, pra guardar roupa de cama e banho.
6 – A cortiça do quarto. A questão da cortiça pode ser resolvida com uma pitadinha de criatividade. Minha decoradora / avó cantou a bola de que aquela cortiça está em extinção e, se retirarmos ela dali e o proprietário fizer questão que ela seja recolocada na saída, podemos não conseguir mais daquela cortiça. Então uma solução, que minha mãe, também portadora do gene de decoração-e-soluções-práticas-e-bonitas-para-uma-casa-em-apuros, já tinha dado seria comprar tecido e colocarmos ali, por cima da cortiça feia, com tachinhas mesmo. A partir daí podemos elocubrar mais alguma coisa, tipo fazer umas 2 faixsa de outra cor (neutra) em cima do tecido (também neutro) em cima e outra perto da cabeceira da cama.

 

 

E eu sei que não tem nada a ver com o blog, mas encontrei uma carta que escrevi para minha avó em uma edição da revista literária da qual eu participava. Cada semana um dos participantes (todos eram da área de letras e comunicação, menos eu) bolava um tema e todos nós escrevíamos sobre esse tema. Naquela semana especificamente, o tema era “cartas” e cada participante tinha que determinar pra quem seria a carta do próximo. O participante que ficou responsável por escolher o meu destinatário pediu que eu escrevesse uma carta para alguém que me despertasse alguma saudade ou nostalgia.
Se não me engano, escrevi essa carta em 2004 e é impressionante como ela é atemporal. Copiada e colada aqui pra vocês.

 

Vó,
Outro dia te vi na calçada. Você penteava os cabelos de mel de uma outra menina distraída. Ela brincava com os próprios dedos, se entretinha com essas coisas bobas a que as crianças costumam se ater. Mas meu carro passou rápido (não era eu no volante). Não consegui gritar. Acenar. Nada, não deu tempo. Engoli as suas duas letras exclamativas, que são mais minhas do que suas, são mais minhas que de qualquer outro neto – vó!. Olhei pra frente de novo, mas fiquei lá atrás, meus cabelos nas suas mãos, quando eu ainda não tinha tanta pressa. E você não precisava de corticóide pra controlar bronquíolos nervosos. Tudo se resumia a um momento isolado.
As minhas intimidades sem senhas, meus sonhos todos de clara em neve. Principalmente à tarde, quando eu lambia as pontas dos dedos depois que o bolo ia pro forno. (Até hoje gosto de massa crua.) E o resto leve, o ar respirável. Sem a culpa, essa culpa pesada dos fracassos pequeninos que eu coleciono. Não fazia questão de roupa, brinquedo, boneca. Mas eu queria tanto um cachorro. E isso era insubstituível: nem peixinho de feira, nem gato de rua, nem mesmo o cãozinho da vizinha. Quando a gente é pequena tudo parece mais importante do que devia ser. Os impactos deixam cicatriz, porque somos mais vulneráveis, mais essência, mais matéria. Às vezes as circunstâncias me deixavam doente. Quando minha mãe foi pra Cuba, quando roubaram aquele nosso filhote de gato. Mas aí você me carregava pra perto, longe dos acontecimentos. Logo eu mudava de nome, de corte de cabelo e ia morar na lua. Ou dentro da piscina da sua casa. Voltava a sorrir sincero, a falar com cor e a dançar as músicas que você cantava. E que depois tocavam dentro da minha cabeça. As suas histórias viravam filmes e eu dormia com os anjos. Brinquei com todos os bichos que você já teve. Gostava muito do Jambo, aquele cavalo de crina avermelhada, que seu pai tinha. Subi nele várias vezes, enquanto você não estava olhando. Também vesti aquela fantasia que você colocou escondida. Que seu pai te fez tirar, te fez chorar. Peguei emprestado o seu dinheiro pro picolé e comprei um pra mim também. Me lembro do seu professor de história, aquele que fazia perguntas e batia com a régua na mesa o número correspondente ao seu número na chamada. Te diziam: “quarenta, zero, senta”.
Depois veio a minha mãe, depois o meu tio, depois eu. Depois todas as minhas fantasias de carnaval, o dia em que eu aprendi a andar de bicicleta, as amoras que eu comia no pé, as jabuticabas, o jamelão, a minha roupa de festa junina, as nossas viagens pra serra, o meu vestido de 15 anos, o dinheirinho pro meu próprio carro. As suas rabanadas todo fim de ano.
Me lembro de tanta, tanta coisa. Mas agora o que eu faço com tudo isso? que me compõe, descompõe e me deixa desafinada. Às vezes deixo criar mofo, às vezes conto em voz alta, pra alguém que ainda não existe. Mas acho que um dia.
Ainda vou fazer um filme.
Sobre todas essas minúcias que a gente vivia.

Comentários»

1. maria lúcia - Julho 6, 2009

És uma escritora nata! Amei! … Você, tua avó e o galope de quem está escrevendo ligeiro o filme, antes que as imagens fujam! Abraços de carinho…
Marilú Santana


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